Escandinávia
dentro de casa

Por Fah Maioli

Reconhecida como uma das mais importantes escolas de design do mundo, a Escandinávia ensinou como a utilização de linhas simples, cores claras e matérias-primas de fácil acesso pode se transformar em design de alto nível. O Radar Móbile buscou especialistas nos países nórdicos e no Brasil para mostrar como é possível aproveitar ao máximo esse pensamento para projetos de decoração.

A evolução industrial trouxe muitos benefícios à humanidade. Isso é inegável. A possibilidade de produzir com melhor tecnologia, maior rapidez e com padrões de qualidade elevados foi o empurrão que o mundo necessitava para entrar na era moderna. No entanto, tradições seculares começaram a se perder. Artesãos foram considerados ultrapassados, visto que agora as máquinas poderiam fazer o mesmo serviço, com custo menor e qualidade similar ou, em alguns casos, superior.

Para evitar que esse tipo de arte desaparecesse, alguns movimentos foram iniciados. Em 1845 foi criada a Sociedade Sueca de Artesanato e Design Industrial, voltada para evoluir os meios de produção, mas sem abrir mão dos detalhes que faziam dos produtos artesanais da Escandinávia objetos de excelência em construção e design. “Simplicidade, funcionalidade e atemporalidade, inspirados pela natureza nórdica”, define o diretor de arte da Design House Stockholm, Eric Wäppling.

Ainda assim, a preservação dessas tradições não impediu que o design evoluísse de maneira inteligente, apropriando-se de características modernas e jovens, mas sem perder sua peculiaridade. “Há nuances entre os diferentes países escandinavos e os designers mais jovens têm uma atitude mais divertida e relaxada em relação a essas características, o que traz nova vida às tradições”, diz Wäppling.

Possibilidades não faltam. E isso serve para grande parte das linhas de design espalhadas pelo mundo. A filosofia por trás do design escandinavo é a mesma que moldou outros movimentos culturais: a reflexão do espírito de como as pessoas vivem. Além disso, a noção de design democrático também foi fundamental para a concepção dessa linha de pensamento. Wäppling explica que os designers escandinavos sempre entenderam que a qualidade deveria ser a mesma para todos e não apenas para a elite.

“Nós crescemos envoltos por excelente design, então, é natural para nós”, justifica a CEO da Lassen, Nadia Lassen. A empresária vem de uma linhagem de grandes designers dinamarqueses, como Flemming e Mogen Lassen (que era seu avô), e hoje continua mantendo viva a tradição familiar, acreditando que todos podem ter um pedaço da Escandinávia.

Cores claras e móveis bem posicionados ajudam a ampliar sensação de espaço e conforto

Adaptação

Estar em um país diferente não é motivo para não buscar inspirações em outras linhas de decoração e design. Misturar influências e trazer características estrangeiras para uma realidade familiar pode resultar em ótimas combinações.

“O design que a gente conhece como brasileiro pelas suas próprias origens, de preservar o estado natural da madeira, entre outras coisas, já traz muitas referências parecidas com isso. É uma realidade próxima da nossa, não por inspiração, mas por caminhos diferentes e resultados similares”, aponta a diretora de estilo e sócia-fundadora do site Westwing, Alexandra Tobler.

A facilidade em incorporar esse tipo de tendências ao dia a dia brasileiro também ajuda na hora de selecionar as peças e compor ambientes. Segundo informações da Artefacto, as linhas retas, traços simples e tons acinzentados tornam a mistura descomplicada, visto que peças isoladas não vão configurar estilos marcantes. Pensamento semelhante ao de Alexandra: “É como o étnico. Você não vai montar um ambiente totalmente oriental, mas vai trazer isso para uma realidade acessível, que combine com a casa do brasileiro”.

Ambiente proposto pela Westwign mistura tons de cinza, texturas e cores, formando identidade mais próxima do dia a dia brasileiro

Produtos

A influência da natureza nórdica no desenho dos produtos aproxima as peças do estilo de vida dos habitantes de países da Escandinávia. O apego pelo natural e as linhas simples, quase simples demais, prezam pela manutenção do aspecto real do material utilizado e pela sensação de leveza e conforto.

Localizada em Gotemburgo, no sudoeste da Suécia, a imobiliária Alvhem Mäkleri realiza um trabalho especial em seus imóveis. Munida de um time de designer, decoradores e arquitetos, a empresa decora e projeta interiores para vender ou alugar as propriedades. A diretora de arte da empresa, Pernilla Algede, ressalta que a composição dos produtos utilizados é fundamental para a proposta.

Mesclando neutralidade e identidade, é possível criar ambientes únicos utilizando os pensamentos da escola escandinava. De acordo com a Artefacto, o ponto chave é a proporção. Configurar linhas simples em produtos importantes e significativos é transformar a simplicidade das formas em sofisticação visual e conforto estético.

No entanto, isso não significa que algumas peças não sejam celebradas mundialmente. Muito pelo contrário. Quem conhece o mundo do design sabe dos valores de mercado de produtos como as cadeiras de Charles Eames ou Verner Panton. Uma, em especial, chama a atenção: a cadeira Den Trætte Mand (O Home Cansado, em dinamarquês). A peça foi desenhada pelo celebrado designer Flemming Lassen e foi vendida por € 248 mil, em um leilão no seu país de origem. “É a cadeira mais cara já vendida em um leilão na história da Dinamarca”, lembra Nadia Lassen.

A presença de elementos e matérias-primas naturais é marcante

Entrevista

O Radar Móbile conversou com a designer e proprietária do Studio Cuvier, Kristina Cuvier. A empresa de Gotemburgo é uma das parceiras da Alvhem Mäkleri. Kristina falou sobre as peculiariadades do design escandinavo, suas possibilidades e algumas tendências que devem aparecer em breve.

RADAR MÓBILE | O que define o design escandinavo?

Kristina Cuvier | Ele é reconhecido por sua simplicidade e expressão limpas, combinadas com funcionalidade. Por termos muitos meses mais escuros durante o ano, a tendência é favorecer cores claras e o espaço branco. Como temos grande foco ambiental, somos conscientes nas escolhas de material e dos efeitos disso no ambiente, tanto visuais como práticos.

Como levar esse pensamento para diferentes lugares?

Kristina | Quando preparamos um novo apartamento para venda, focamos muito no estilo e no potencial de cada local. Há algumas variações e estilos que tendemos a adotar, como o contraste entre o preto e branco, utilizando áreas coloridas e monocromáticas combinadas com madeiras e metal; padrões étnicos combinados com materiais naturais, como couro, madeira e cobre; um estilo de expressão quase neutra, com tons pastéis, madeira clara e linhas limpas e estruturadas.

Como o design escandinavo evoluiu ao longo do tempo?

Kristina | O design escandinavo teve diversas expressões e muitas das grandes influências continuam na linha de frente até hoje. Os arquitetos e designers dinamarqueses sempre apresentaram qualidade constante, como Arne Jacobssen. Da mesma maneira foi com Alvar Aalto, na Finlândia, e Bruno Mathsson, na Suécia. Atualmente observamos que há uma procura bastante global por esse estilo. No entanto, não é sempre por um estilo distinto ou isolado. As diferenças estão muito mais difundidas. Muito disso é devido às mídias sociais, onde inspiração pode vir de qualquer lugar e influenciar o mundo todo.

Que tendências podem ser esperadas?

Kristina | Na próxima estação veremos cores um pouco mais profundas, como racing green e midnight blue, combinadas com cores suaves e madeiras. Os elementos gráficos também combinam perfeitamente com essa expressão.

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O Projeto Conteúdo é uma iniciativa da Alternativa Editorial/Revista Móbile, especializada em comunicação para o setor moveleiro. Os temas abordados são relevantes e focados em tendências para o mobiliário, design de móveis e comportamento de consumo.

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