RENOVADO, ATUALIZADO
E MUITO BRASILEIRO

Sempre ligado nas tendências, o Radar Móbile está com layout e conteúdos totalmente repaginados. Mantendo a mais avançada tecnologia para navegação, agora chegou o momento de voltar todas as atenções para o design.

Para começar essa nova fase, nada melhor que explorar o potencial do Brasil. Com mais de 500 anos de história e dimensões continentais, o país é terreno fértil não somente para uma grande variedade de madeiras, mas também para materiais inovadores, profissionais criativos e múltiplas interpretações do que é ser brasileiro.

Nas próximas páginas, mergulhe fundo na brasilidade e capte todas as tendências do design de mobiliário nacional! Enquanto Fah Maioli se aprofunda na identidade brasileira, conheça jovens talentos, trabalhos premiados internacionalmente e saiba como o Brasil aparece no ponto de venda.

Bom passeio!

Renata Bossle, renata@mobiledg.com.br

 
 

Em busca do design com alma brasileira

Desde o início do século XX, muitos brasileiros estão em busca de uma identidade para a arte produzida no país. Entre eles está o designer Sérgio Rodrigues para quem a brasilidade é, praticamente, uma exigência do design nacional.

Por RENATA BOSSLE

Brasilidade depende de originalidade e pequenas escalas

Além de Sérgio Rodrigues, a curadora da Casa Brasil, Maria Helena Estrada, enumera outros designers com um olhar próprio sobre a brasilidade. Entre eles estão: os Irmãos Campana, Domingos Tótora, Tina e Lui, Renato Imbroisi e Guto Índio da Costa.

De acordo com ela, um dos elementos mais importantes para o desenvolvimento da brasilidade é fugir das cópias. "É preciso fazer o design com inspiração

brasileira, sem copiar de outros países ou mesmo de dentro do Brasil", afirma. Maria Helena também aponta que o designer, com seu olhar aguçado, precisa identificar e vivenciar o Brasil. Contudo, ela admite que a noção nacional se torna dispersa no desenho industrial, o que seria um fenômeno global. "O desenho industrial pressupõe uma larga produção e é necessário um investimento muito grande. Então, o produto tem que agradar praticamente o mundo inteiro", afirma.

Para a curadora, quanto maior a tecnologia, mais o design se torna impessoal. Ela completa: "Na produção semi-industrial e no design de baixa tecnologia, você olha em volta e vê se é Brasil ou se é influência de outros países, de outras culturas. O olhar diz muito".

Mas, como realizar essa identificação? De acordo com ele, as peças precisam ter um detalhe relativo ao Brasil. "A alma desse design tem que ser brasileira", afirma e completa: "Você pode ter esse toque brasileiro com um material como a madeira ou com alguma coisa relativa à história do Brasil ou relativa também ao índio ou ao negro".

Rodrigues acredita que o trabalho de muitos designers segue a produção de outros locais, especialmente dos Estados Unidos e de países europeus. Ele ainda observa: “Vejo muita luta para chegar a esse ponto de brasilidade. Posso não citar nomes, mas há de 10 a 15 jovens designers atuais que estão tentando aplicar essa brasilidade no trabalho deles".

 

Valorizar a nacionalidade pode incentivar preconceitos?

Olhando uma peça de design de mobiliário contemporâneo, sem saber o autor, é possível dizer se o móvel é alemão, italiano, inglês, francês, japonês ou norte-americano?
Esse é o questionamento proposto pelo designer e diretor de relações

institucionais da Associação de Designers de Produto (ADP), Ernesto Harsi. "Mesmo que em alguns ícones do design possamos reconhecer características de design escandinavo, japonês ou brasileiro, estes são casos muito específicos e na maioria dos produtos não podemos reconhecer nacionalidade", aponta e alfineta: "Qual é a diferença entre o design de cadeiras escandinavo e brasileiro dos anos 1960? Entre Sérgio Rodrigues e Finn Juhl?".

De acordo com ele, não se deve tratar o design brasileiro como uma marca com brasilidade, mas promovê-lo por um conjunto representativo de qualidade de projeto, de fabricação, de inovação e com presença marcante de marcas e nomes brasileiros no mercado internacional.

Para Harsi, não se deve tratar o design do país como uma marca com brasilidade, mas promovê-lo por um conjunto representativo de qualidade de projeto, de fabricação, de inovação e com presença marcante de marcas e nomes brasileiros no mercado internacional.

"Em algum momento, o mercado perceberá que há design de qualidade internacional no Brasil, assim como há na Alemanha ou nos Estados Unidos", afirma.

Outras questões sobre brasilidade propostas por Ernesto Harsi:


- Onde vamos encaixar os móveis de plástico, altamente 'tecnológicos', do escritório Índio da Costa ou os móveis 'minimalistas' da Ovo?

- Há brasilidade nos móveis 'escandinavos', altamente industrializáveis, de Michel Arnoult e da Tok & Stok? E nos móveis de escritório de Freddy Van Camp e Ronaldo Duschenes?

- Onde encontramos a brasilidade no design de linguagem internacional de Isay Weinfeld e de formas refinadíssimas de Jader Almeida?

- O que a Nó Design tem de brasilidade além de designers de qualidade?

Afinal, o que é brasilidade?
A resposta está na análise do conjunto

Professora do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Virginia Pereira Cavalcanti acredita que a brasilidade não é algo estabelecido, mas um processo.

"A brasilidade é resultante de uma série de fatores. Um dos que eu considero como mais importante é a utilização do design como instrumento de inovação e de valorização das referências culturais", afirma, mas alerta: "Isso não significa, necessariamente, que você tenha uma referência cultural local, mas referências culturais brasileiras de uma forma mais ampla".

Outra ressalva feita por Virginia é que a brasilidade é uma construção coletiva, não podendo ser creditada a um indivíduo ou empresa. De acordo com ela, no coletivo há grupos e fatores que contribuem para formar o caráter de identidade.

Entre os elementos de identificação de uma localidade, ela ainda enumera características do território, de matéria-prima, de formas e de linguagem estética. "Não é só um designer, não é só uma empresa que faz isso. É quando você consegue reconhecer, naquele coletivo, uma unidade, uma linguagem nova que vai caracterizar aquela localidade", analisa.

Diferentes maneiras de perceber o Brasil no design

Segundo a professora, durante muito tempo a brasilidade esteve relacionada a referências culturais locais. Essa visão teve seu auge na década de 1970, quando muitos designers e artistas – assim como antropólogos, filósofos e sociólogos – procuraram relacionar o caráter de brasilidade no design com elementos regionais.

"Isso foi muito bom porque não existia nenhuma referência até então", observa Virginia. Contudo, atualmente esse pensamento mudou: "Hoje há tanto uma abordagem calcada nas diversidades locais quanto uma voltada para as referências urbanas ou em outras referências que se descolam dessa visão tradicional".

Como exemplo de um viés tradicional, ela cita o trabalho de Lina Bo Bardi, inspirado nos elementos culturais baianos e com uma linguagem baseada na cultura popular. Por outro lado, ela relembra o primeiro período da obra dos irmãos Campana, que possui uma visão urbana.

Outro designer atual citado pela professora é Maurício Azeredo, que trabalha com madeiras brasileiras. "É uma outra abordagem. Ele utiliza as cores das madeiras nativas de uma forma muito natural e trabalha o lúdico nas peças", observa.

Para o futuro, a Virginia aposta na diversidade: "O Brasil está começando a se reconhecer como um país de diversidade. Isso é um processo lento de mudança cultural e não envolve desconsiderar as características do povo, mas ampliar o leque de referências".

 

JOVENS DESIGNERS BRASILEIROS QUEREM VENDER

Chegar ao consumidor final com um preço atraente e um produto inovador é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos designers brasileiros que atuam no mercado nacional. Felizmente, muitos aceitam o desafio e conseguem apresentar trabalhos criativos e surpreendentes.

Para saber mais sobre o assunto, o Radar Móbile conversou com Bernardo Senna, Em2 Design, Flávia Pagotti Silva, Projeto 3 Design e Arquitetura e Zanini de Zanine sobre criações recentes e planos.

Por RENATA BOSSLE

Bernardo Senna: simplicidade e apelo emocional

O designer Bernardo Senna – que projeta móveis para marcas como Componenti, Schuster, Madesol, Tok & Stok, Trama Fhina e Maze – acredita que bons produtos devem ser acessíveis a mais pessoas. Por isso, aposta na simplicidade de formas e processos para controlar os custos, reduzir a carga de trabalho e, ao mesmo tempo, garantir um caráter atemporal ao produto.

Entre os principais desafios da atividade, Senna cita a melhoria na eficiência da produção e o aumento na rentabilidade e nos ganhos pelos projetos realizados.

Ele sugere: "O que falta melhorar é o sistema comercial, pois ele aumenta muito os custos sem agregar quase nada. Vendas pela internet, maior destaque para a marca das indústrias e financiamento coletivo tornam o preço dos produtos mais justo".

Entre os materiais mais utilizados por Senna estão acrílico, madeira e mármore, mas ele promete diversificar nos próximos lançamentos, com a inclusão da cerâmica. "O mercado é muito caótico e pouco racional, o que determina o sucesso de um produto ou até mesmo se ele chegará ao seu público-alvo são fatores que temos muito pouco controle, como a moda e os costumes", relata.

 

Protótipos e boas ideias podem valorizar design brasileiro

 

A dificuldade no desenvolvimento de novos produtos, segundo Bernardo Senna, está na baixa valorização dos protótipos pela indústria, o que caracterizaria um grande empecilho para a qualidade dos produtos nacionais.

"Se gastamos um pouco de tempo nele, temos um produto muito melhor e mais eficiente, com menor custo e maior qualidade.

Felizmente, os meus parceiros de hoje entendem isso", aponta.

Senna ainda afirma que não acredita em produtos para compor ambientes, preferindo peças com personalidade própria, capazes de ir além do uso. "Procuro ter uma boa ideia em cada peça, que tenha um apelo emocional ou prático ao usuário final", garante.

 

Em2 Design: ousadia na aplicação de novos materiais

Concreto, pele de salmão e cobre repuxado. Os últimos lançamentos da Em2 Design, de Mariana Betting Ferrarezi e Roberto Hercowitz, trouxeram materiais inesperados para o design de mobiliário.

Segundo Mariana, todos os anos, a empresa faz uma conceituação para a nova coleção, com referências de outros âmbitos. "Já tivemos peças baseadas nos povos pré-colombianos, onde estudamos as vestimentas, a arquitetura, os costumes e as tradições", lembra a designer.

Ela continua: "A mais recente criação com um reconhecimento grande são as mesinhas concretistas, que são baseadas no movimento concretista e, por coincidência, são também as peças em que a gente utilizou concreto".

As mesas foram premiadas na Casa Brasil, estiveram entre as finalistas no Museu da Casa Brasileira e, também, no IF Design Award, em Hanôver (Alemanha). De acordo com Mariana, a inspiração surgiu a partir das artes plásticas e da poesia.

Preço competitivo pede volta à prancheta

Entretanto, Roberto Hercowitz aponta que a maior dificuldade da Em2 Design está na escala de produção. "Estamos em um nicho de mercado em que o produto não é uma peça artesanal, mas também não é um produto de massa. Então, achar parceiros que trabalhem com essa pequena escala e com repetição e qualidade é o grande desafio", pondera.

Segundo Mariana, a escala prejudica as vendas porque o estúdio acaba não conseguindo um preço tão competitivo diante de outros produtos. "Por mais que sejam produtos mais exclusivos, eles tampouco estão em um nível de galeria, como as peças únicas ou de escala muito pequena", afirma. Hercowitz completa: "Buscamos formas de produzir para que os preços se encaixem aos trabalhados no mercado".

De acordo com Mariana, isso pode implicar até em uma alteração no design. "Às vezes, pensamos em um determinado material, mas ele torna o produto incoerente com o mercado. Não adianta lançar assim", observa.

A designer conta que, depois da prototipagem, os móveis são apresentados para o mercado em um lançamento anual, quando os lojistas são convidados para visitar o showroom. Em 2014, esse lançamento está previsto para acontecer em outubro.

Flávia Pagotti Silva: bom humor inusitado
e provocante

Trabalhando com estofados, madeira de reflorestamento e MDF (folhado ou laqueado), a designer Flávia Pagotti Silva conseguiu ser uma das profissionais mais premiadas do país. De acordo com ela, o segredo é sempre ter algum elemento de destaque no produto, capaz de chamar atenção por ser inusitado, bem-humorado ou provocador.

Ela conta que trabalha, principalmente, com produtos para a classe alta, mas recentemente começou também a desenhar para a classe média. Entre os desafios produtivos mais comuns, Flávia cita a necessidade de manter a qualidade quando o volume de pedidos cresce.

 

"Muitas vezes, o fabricante não consegue manter a qualidade em todos os produtos", afirma e aconselha: "A forma de contornar isso é o fabricante saber claramente qual é a sua capacidade produtiva e, a partir de um determinado número de pedidos, passar a aumentar o prazo de entrega".

Essa medida, segundo Flávia, é importante para que os produtos sejam duráveis e tenham um longo ciclo de vida, não precisando de substituição.

Preço justo e com remuneração adequada

Outro aspecto valorizado pela designer é a produção artesanal. "Um produto feito dessa forma pode ter mais valor agregado e mais exposição na mídia. Ele pode servir como um chamariz para atrair clientes e alavancar vendar de outros produtos da linha, feitos de forma mais industrial", exemplifica.

Flávia também acredita que o preço de um produto deve ser referente ao que ele realmente custa, com todos os participantes do processo merecendo receber a remuneração adequada, sem exageros de nenhuma parte.

"Os fabricantes em geral trabalham no limite, a remuneração do designer é muito baixa – variando de 3 a 7% do valor de atacado – e o lojista tem uma série de custos, como a reserva técnica", enumera. De acordo com ela, é preciso rever uma série de taxas, pois são exigidas porcentagens altas que encarecem a mercadoria e podem até chegar a inviabilizar alguns produtos.

Projeto 3 Design e Arquitetura: observando possibilidades e necessidades

Procurando utilizar – com poucas exceções – as tecnologias disponíveis e dominadas pelas indústrias moveleiras, a Projeto 3 Design e Arquitetura realiza móveis em alumínio, acrílico, MDF e MDP. Segundo o arquiteto Daniel Camera, isso é possível devido à versatilidade das empresas parceiras, que possuem várias tecnologias de transformação com destaque para as moldureiras.

"Nas empresas que trabalham com produtos mais populares, nos quais a repetição é muito alta, temos que criar produtos pensando que setor está mais ocioso no processo produtivo da fábrica", relata. Ele também explica que é feita uma avaliação do investimento em máquinas e pessoas para o produto, levando em conta uma meta a ser produzida para compensar o investimento.

 
 

Segundo ele, o maior desafio do design de móveis é a percepção de que é preciso lidar com matérias-primas, resíduos, processos, pessoas, tecnologias, mercado de distribuição, comercialização, cliente final e outros aspectos.

"Quando sabemos um pouco de cada setor, podemos interagir e criar produtos que atendam às necessidades de todos a um custo justo e que possibilite uma margem de lucro para manter o negócio, seja ele feito de forma artesanal ou em grande escala", garante.

Consumidores reconhecem produtos bem pensados

Camera não nega que o mercado está muito competitivo, de modo que acredita na necessidade de apresentar novidades constantemente. “Quando um produto é lançado, é interessante acompanhar a evolução dele, entender como ele pode ser melhorado ou aprimorado e já preparar o próximo produto que o substituirá”, aponta.

Ele explica que a Projeto 3 Design e Arquitetura trabalha sob demanda, a partir de pedidos dos clientes. Assim, a empresa lida com produtos diversos, desde peças únicas até a produção em alta escala.

Quando a produção acontece em uma escala menor e artesanal, Daniel observa que a valorização do aspecto regional, a mão de obra cooperativada, as matérias-primas alternativas e a reciclagem podem ser aliadas.

“É preciso desenvolver o lado comercial, que deve conseguir valorizar estes argumentos para sustentar o negócio”, aconselha.

Nas criações mais recentes, ele afirma que há uma preocupação com forma, funcionalidade e tecnologia: “O importante é o consumidor perceber que se trata de um produto que envolve a dedicação de muitas pessoas desde a sua concepção até o encontro com o cliente final”.

Zanini de Zanine: brasilidade e identificação

O contato de Zanini de Zanine Caldas com o design de móveis começou cedo. Filho do paisagista, designer e arquiteto autodidata José Zanine Caldas, ele produziu seu primeiro móvel em um estágio com Sérgio Rodrigues. A partir daquele momento, nunca mais parou.

De acordo com Zanini, cada projeto tem suas próprias características e, mesmo os mais simples, apresentam dificuldades de produção. "Em experiências mais recentes utilizei o lentiflex, um tipo de plástico muito resistente e maleável, patenteado na Itália pela Slamp", relata.

Mesmo trabalhando com marcas internacionais, Zanine acredita que uma das principais características de suas criações é a presença de referências da identidade brasileira, seja no ponto de

partida do projeto, na escolha do material ou no processo.

"Meu público principal é o que se emociona, aquele que deseja um móvel ou produto pelo fato de se identificar com a peça. Para atendê-lo, tento também desenhar com emoção", afirma.

 
 

O artesanal que vende bem

Entre as maiores dificuldades de seu cotidiano, Zanine cita a necessidade de equilibrar custos e preços de mercado. "Alguns produtos não permitem essa relação e, por isso, tornam-se peças únicas ou limitadas", explica.

De acordo com ele, uma boa ideia para administrar essa relação é o designer analisar o preço final antes de optar pelo processo, material e desenho, de forma que isso não comprometa a qualidade do produto: "Acredito que, quando se tem um ótimo produto, o fato de ser artesanal ou não é indiferente. Tenho móveis em madeira de demolição, feitos artesanalmente, que vendem mais que peças de larga escala".

Entre outros aspectos que também devem ser observados no desenho de móveis, o designer cita a durabilidade, os materiais, a função e outros aspectos que levarão ao desgaste e ao fim mais sustentável do produto.

 

É DO BRASIL!

Identificação. Esse é um dos sentimentos mais básicos do consumidor ao adquirir um novo produto. É preciso que a nova compra seja coerente aos desejos do comprador, que atenda suas necessidades e ofereça algo mais que a facilidade de consumir.

Investir em identidade nacional e pesquisar tendências locais pode ser a chave para atingir um público cada vez maior.

Por JORGE MARIANO

Com esse pensamento em mente, muitas marcas começaram a investir na personalização de produtos, seja com o lançamento de linhas que evoquem características específicas, seja por meio da parceria com designers renomados. "A personalização tem sido o grande diferencial do novo consumidor. A partir do momento que a empresa utiliza o conhecimento e o nome de designers no desenvolvimento de produtos, o interesse do consumidor aumenta", explica o coordenador do Centro Gestor de Inovação Moveleiro (CGI Moveleiro), Renato Hansen.

No Brasil, boa parte dessa personalização se dá com base na identidade nacional. A brasilidade volta a aparecer com força no mercado, sendo motivo de lojas especializadas em produtos nacionais e marcas que levam o nacionalismo no nome. De acordo com informações do CGI Moveleiro, parte dessa transformação se deve a importação de tecnologias e conceitos nos últimos 10 anos, o que levou fornecedores nacionais a se adequarem aos novos patamares.

Sônia Diniz, proprietária da loja Firma Casa, em São Paulo (SP), diz que o design brasileiro já era muito apreciado fora do país e, ao final dos anos 1990, ela resolveu apostar em trazer esse trabalho de volta ao seu local de origem. "Meus amigos Fernando e Humberto Campana já criavam peças revolucionárias, como a luminária Estela, que encantou Milão em 1997. Eu disse a eles: tudo o que vocês desenvolverem fora do país eu trarei de volta, para ser vendido aqui", lembra.

 

Vendendo bem

Parte importante do relacionamento com o consumidor é a criação de objetos que chamem atenção no ponto de venda (PDV) e até de showrooms exclusivos. "Os consumidores procuram peças com as quais se identifiquem, que criem identidade com sua casa. Não se contentam mais com peças pasteurizadas", comenta o proprietário da Benita Brasil, Roberto Mannes Júnior.
Segundo ele, a ideia para criar a marca surgiu ao perceber que havia poucos produtos explorando a diversidade brasileira. "Quisemos unir culturas e povos em seus elementos mais diversos, representando a efervescência criativa do Brasil sob o olhar de designers convidados", diz.

A Casa Brasileira, marca apresentada em 2013 pelo grupo Unicasa, partiu dos mesmos princípios explicados por Mannes e foi um pouco além. Para atrair os consumidores e auxiliar na seleção dos produtos, a empresa criou um espaço interativo em seus pontos de vendas.

Lá, o cliente passeia pelos ambientes da casa e tem noções de espaços e tamanhos para melhor planejar os móveis que adquirirá. De acordo com informações da assessoria de

imprensa da marca, a ideia foi inspirada na brasilidade e nas diferentes regiões do país. Uma pesquisa em todo o território nacional abrangeu hábitos culturais e comportamentos. Do estudo, traduziram-se elementos que foram aplicados tanto no projeto de loja quanto na construção da logotipia, orientando a utilização de cores, linguagem de rua, artesanato, uso de temperos, plantas e texturas.

Tudo isso, além de auxiliar, pode ser o fator decisivo na hora da compra. "Tenho convicção de que as empresas que investem em design próprio, marketing e vendas terão resultados diferenciados e o consumidor irá identificar como sendo uma empresa séria e confiável", atesta Renato Hansen.

 

Oscar Niemeyer inspira móveis com elementos de brasilidade

Entrevista com o arquiteto Fabricio Roncca, criador de uma linha de móveis baseados nas obras de Oscar Niemeyer. Entre as peças de destaque está a cadeira Occhio, vencedora do 2º lugar no Prêmio Brasilidade Industrial.

Por RENATA BOSSLE

Radar Móbile | Por que você decidiu fazer uma coleção inspirada em Oscar Niemeyer?

Fabricio Roncca |
No estúdio, também trabalhamos com arquitetura e as obras de Oscar Niemeyer sempre foram uma referência muito grande. Como já temos uma linguagem no design de móveis inspirada em edifícios, principalmente da arquitetura brasileira, nada mais justo que
homenageá-lo.

Quais características do trabalho do Niemeyer são essencialmente brasileiras?

Roncca | Ele sempre deixou claro que a inspiração era a mulher brasileira e a geografia do nosso país, com a natureza e as montanhas, como o Pão de Açúcar. Era sempre algo monumental que trazia referências da natureza para a arquitetura. Também teve um período em que o Niemeyer trabalhou de forma internacional, vamos dizer assim, com a arquitetura modernista, mas ele sempre deu esse toque, essa pincelada brasileira.

Quando começou a história dessa coleção?

Roncca | Há uns cinco anos, criamos uma espreguiçadeira para uma empresa que era inspirada na Igreja [São Francisco de Assis] da Pampulha, mas ela acabou não sendo lançada no mercado. Eu sempre tive essa vontade de desenhar móveis pensando na arquitetura do Niemeyer porque ela é muito gestual e ligada à natureza brasileira e às montanhas, então, acredito que ela tem uma ligação muito grande com as formas dos móveis que gosto – são orgânicos e têm essa questão da ergonomia. Como ele tem um desenho bem característico e solto, cabe bastante no design de mobiliário, principalmente com peças de sentar, como sofás, poltronas, cadeiras e banquetas.

Quais são os diferenciais da cadeira Occhio, que foi premiada?

Roncca | Ela tem a questão construtiva, estrutural, que é de fácil execução. Os materiais são comuns no mercado. O grande diferencial mesmo é a estética, o desenho inspirado no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (PR). Mas é difícil falar, pois além da questão visual, a estrutura também agradou por tornar a peça durável e de fácil construção.

Como foi fazer essa releitura?

Roncca | A cadeira Occhio tem uma linguagem que não é tão óbvia. É muito fácil pegar uma referência forte, como o Museu, e transformar em uma peça que é a cópia diminuída daquele elemento. O óbvio gratuito não é legal. Nesse

caso, a cadeira teve uma releitura da obra e acabou ficando com uma linguagem única. Isso é algo que não é palpável.

De que forma ela representa a brasilidade?

Roncca | Obviamente, há a ligação dela com Oscar Niemeyer, que é o maior ícone da arquitetura brasileira. Também utilizamos na coleção inteira as cores que remetem à bandeira nacional, além de outros elementos brasileiros. Por exemplo, no banco Copan, mesclamos o edifício Copan com a calçada de Copacabana para trabalharmos com as curvas. Nos tecidos que utilizamos, criamos estampas baseadas em muralistas e artistas brasileiros que trabalharam com Oscar Niemeyer em seus projetos.

Como foi participar do Prêmio Brasilidade Industrial?

Roncca | É interessante porque já criamos mobiliário e trabalhamos com algumas empresas do setor em móveis de alto padrão, mas são peças comerciais. Então, a gente não costuma ter tanta liberdade de criação para desenvolver linhas com um conceito mais voltado para a própria arquitetura, para as artes em si.

Essa liberdade mudou muito o trabalho?

Roncca | Foi uma oportunidade para partir de uma referência e criar uma coleção sem nenhuma barreira, sem nenhuma interrupção da indústria. Sempre existe o lado da venda da peça e, nesse caso, ficamos bem livres para criar baseados em um ícone, um gênio. As peças foram bem aceitas e já temos até convites para o desenvolvimento de algumas delas para o mercado.

 

Design nacional

identidade, criatividade e originalidade

Especialistas comentam sobre as necessidades para que a produção se destaque ainda mais internacionalmente.

Por PATRÍCIA BLÜMEL

John Howkins afirma que o design, com sua criatividade, é a grande ferramenta para a competitividade contemporânea. O consultor britânico, responsável pelo nascimento do conceito da economia criativa, defende que o design resulta da união da criatividade com a originalidade e a identidade das mais diversas indústrias produtivas e de serviços. Pensando nisso, vale a pena refletir: quais são os desafios para que o design brasileiro conquiste ainda mais destaque no mercado internacional?

A diretora executiva da Associação Objeto Brasil, Joice Joppert Leal, responde à pergunta afirmando que o design já começa a ser visto como vetor de crescimento e agente transformador de processos, repensando aspectos econômicos, sociais e ambientais. "O Brasil é fruto da alquimia das nações que construíram o país", afirma, defendendo que o Brasil já conquistou o trinômio defendido por Howkis.

 

A Associação Objeto Brasil trabalha há 18 anos divulgando o design nacional. Uma das ações é a realização da edição brasileira do IDEA Awards, o prêmio IDEA/Brasil, que teve seis edições em solo brasileiro e tem por objetivo a disseminação do design nacional.

Com base nessa experiência, a diretora executiva ressalta apenas um maior investimento em inovação como condição fundamental para a ampliação da presença brasileira no mercado internacional. "Inovação em toda sua abrangência, do projeto ao produto, ou seja, na busca de soluções, na pesquisa de novos materiais e modos de fabricação e também na preocupação com seu descarte e impacto social e ambiental. Mas, acredito que os designers e empresas brasileiras já estão atentos a isso e trabalham, cada vez mais, inseridos nessa perspectiva".

Inovação como palavra de ordem

Para João Araújo, gerente do Projeto Brazilian Furniture, o investimento em inovação realmente é um desafio quando se trata de aumentar a inserção e o reconhecimento da produção nacional no mercado internacional, mas merece destaque o fato de que designers e indústrias brasileiras estão buscando uma maior adequação de sua produção às tendências de mercado.

Pelo menos é um amadurecimento neste sentido que ele observa estando à frente do Brazilian Furniture, iniciativa que busca, desde 2005, a ampliação do mercado. "Nos mercados-alvo trabalhados pelo projeto internacionalmente, percebemos que os produtos brasileiros são procurados com foco em preço, qualidade, inovação e design. Gradativamente, as empresas brasileiras estão se comprometendo em atender estas demandas", avalia.

Como desafios para um maior reconhecimento internacional, ele cita que a produção nacional ainda demanda mais investimentos em mídias especializadas e uma participação mais frequente em eventos internacionais de porte. "Outro ponto que merece atenção é a necessidade de informações mais precisas dos mercados que o Brasil pode conquistar para que se gere um melhor conhecimento", explica.

Design brasileiro ainda persegue a 'marca Brasil'

"O design brasileiro segue o mesmo caminho do crescimento do país", explica o designer e professor Ivens Fontoura, que também preside a Associação Brasileira de Críticos de Design (ABCD). O Brasil se encontra entre as dez maiores economias do mundo, oscilando entre a sétima e oitava (US$ 2,190 trilhões) e a produção de bens de capital e de consumo em larga escala incrementa o setor primário, gerando emprego, aquecendo a economia e propiciando melhor qualidade de vida. "É aí que entra o design. É uma questão cultural e econômica também. Não há como dissociar", analisa.

Renato Orensztejn, diretor do Projeto Brazilian Designers, concorda que os desafios no design são os mesmos

enfrentados por toda indústria nacional. "O Custo Brasil tira a competitividade e também a renovação dos parques industriais, situação que restringe os processos produtivos e interfere no aumento dos preços", conta. E é enfático ao afirmar que o maior desafio é ser criativo: "Não vejo perspectiva nenhuma de redução do custo da produção nacional".

Também quando se fala em evolução, Fontoura afirma que o design brasileiro segue os rumos do Brasil como um todo. "Começamos copiando como muitas nações do pós-guerra, mas, ao contrário delas – que copiaram com a intenção de gerar novas ideias e poder competir e superar o original – copiamos a fim de manter a obediência e ser servis", pondera.

"Fontoura acredita que o design não passou a transformação que aconteceu, por exemplo, com a arte brasileira. "A Semana de Arte Moderna, de 1922, rompeu a tradição e buscou o próprio caminho", relembra. "No design, entretanto, mudou-se mais de direção do que de personalidade." Levando-se em conta que personalidade significa ser capaz de influenciar, o designer lamenta: "Ainda influenciamos muito pouco."

E Orensztejn vai além ao afirmar que, internacionalmente, o Brasil já é visto como um novo berço de criação de moda, arte e música. "Nos falta essa 'pegada' nos produtos de design. O que se espera lá fora é que nossos talentosos artistas desenhem produtos que surpreendam, que inovem, que lancem tendências. Alguma coisa já acontece neste sentido, mas ainda temos muito a conquistar", avalia.

A pluralidade da produção nacional de design

Uma das dificuldades em se perceber o produto de design brasileiro no exterior pode ser sua grande diversidade e pluralidade. "Temos vários perfis de design, ligados a uma região, a uma cultura", opina o diretor da Nó Design, Leonardo Massarelli.

Ele cita as escolas da madeira bruta, da palhinha. A escola das grandes dimensões e do conforto, do improviso, dos materiais alternativos e das linhas finas e elegantes. "Tudo isso leva a definir o design brasileiro como um plural", afirma.

Com mais de 110 prêmios de design conquistados em seus 20 anos de existência, sendo 30 deles internacionais, o estúdio Nó Design tem o compromisso com o novo. "Acreditamos que é preciso mais seriedade das indústrias em investir no design nacional. Neste sentido, buscamos não fazer mais do mesmo e sim trabalhar com poucas marcas, mas que, realmente, se interessam pela inovação", comenta.

Para o designer curitibano Ronald Scliar Sasson, o que falta é um design nacional convincente e autêntico. "Atualmente, poucos designers nacionais conseguem verdadeiro reconhecimento internacional. Cito nomes como Zanini de Zanine, Irmãos Campana e Etel Carmona. E, não por coincidência, são os que, realmente, inovam nas formas e usos da madeira", explica.

Apesar da modéstia em não incluir seu nome, Sasson também já se destaca internacionalmente, mesmo tendo iniciado o envio de seus trabalhos ao exterior apenas em 2012. Entre alguns dos prêmios que já conquistou está o Design Award, nos anos 2012 e 2014; o ouro no IDEA/Brasil 2013 e o IF Design Award 2014, na Alemanha.

 

Terra Brasilis

Desde a declaração da Independência, em 1822, a identidade do Brasil sofreu numerosas transformações em função das mudanças nos âmbitos sociais, econômicos e políticos. E, então, é um pouco complicado pensar que este território possa apresentar uma única identidade brasileira, que possa ser chamada de brasilidade.

Além disso, trata-se de um país composto por uma miríade de raças, classes sociais, credos e tradições provenientes de todos os demais continentes. Outro fato são as diferenças internas. A cultura das regiões Norte e Sul do país, por exemplo, são muito marcadas.

Por FAH MAIOLI

Nesse panorama, definir o que é brasilidade torna-se uma tarefa, digamos, quase impossível. Mas, como este é o tema desta edição do Radar Móbile, me desafio, como primeira reflexão para tentar iniciar uma definição aproximada do que poderia ser brasilidade é olhar para os escritos de alguns autores.

Penso que possa ser uma sensação, aliada a um conjunto de elementos característicos, já que foi assim que nos apresentaram as brilhantes obras "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre e "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. Sem falar no polêmico Mário de Andrade e seu Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter"! Aliás, Mário sintetizou no personagem, a falta e o excesso, na qual se reflete grande parte da identidade brasileira da época do autor até os dias atuais. Esse romance se tornou (para mim ainda é) uma obra emblemática, na qual o sentido da sociedade brasileira espelha um povo que vive em estratos, de grande complexidade, com "n" tipos de caráter e que é feliz, "apesar de" e não "porque".

Imaginário
brasileiro

Como segunda reflexão, sei que a "marca" de um território ou característica distintiva de um habitante ou país pode ser analisada através de características diversas e classificáveis, através de associações mentais, sensoriais, emotivas e racionais, como, por exemplo:

• Sensorial:
A arte, a cultura, a gastronomia, a moda, o design e os bens de consumo.

• Emotivas:
As férias, o clima, a beleza, os amigos e outros elementos.

• Racionais:
A linguagem, a história e outros aspectos.

Caldo Cultural

O Brasil, com o imenso "caldo cultural" componente de sua identidade, encarna os paradigmas do futuro, oferecendo um espaço imenso no mercado interno de 200 milhões de habitantes em permanente mutação para novos produtos e serviços e até novos modos de vida. Tudo pensado para a vigorosa classe média em expansão infinita. O Brasil e a sua "brasilidade" são um imenso laboratório criativo para novas linguagens, arquiteturas, modas, designs e publicidades.

Porém, para que este futuro aconteça com sucesso no presente, talvez, seja a hora certa de começar a abordar também alguns problemas de origem nas nossas raízes, afinal, parece que continuamos a viver na sociedade patrimonialista que citava Gilberto Freyre.

Nessa concepção, os objetos ainda refletem muito o segmento social da pessoa: o tênis, o carro e o restaurante não valem só pelo que eles são, mas como símbolos de status. É por isso que sai mais caro jantar no Rio de Janeiro do que em Milão, por exemplo.

O que inflaciona muito a marca de um restaurante brasileiro é ser frequentado por celebridades: tudo isso porque a sociedade vive uma busca insana pela fama – por aqueles 15 minutos de Andy Warhol – que, no Brasil, trazem muitos privilégios.

Dessa forma, o conceito de brasilidade assim como o de italianitá que, aqui na Itália está bem definido, pode ser definido analisando-se essas associações. O conceito será muito diferente daquele que distingue os argentinos, os alemães e os americanos. Como em todos os conceitos complexos, teremos ao final do processo um conjunto de imagens, que vão corresponder ao que se chama em pesquisa, de constelação de atributos.

Quer um exemplo clássico?

Imagine, uma baguete, a torre Eiffel, alguns macarons, champagne e uma mulher elegante vestindo um trenchcoat. Essas imagens, juntas, podem ser recuperadas na memória em longo prazo para representar o conceito de "ser francês".

 

A casa da brasilidade

O brasileiro tem a percepção de sua morada como um lugar singular, onde o espaço é exclusivo, ao contrário de outras culturas onde este mesmo espaço pode ser também coletivo. Pois cada casa, embora tenha os mesmos espaços e, basicamente, os mesmos objetos de todas as outras, é diferente delas. Todas são únicas, se não como espaço físico, pelo menos como domínio onde se realiza uma convivência social profunda.

A partir dessa característica, é possível diferenciar profundamente a casa ou a morada – ou prédio – do lar. Mesmo quando são residências baratas ou casas de vila, construídas de modo idêntico, sempre veremos algo que marca e revela sua identidade e, com isso, a identidade do grupo que a ocupa: um pedaço de cerâmica colorida estrategicamente colocado próximo a uma janela; um nome escrito a mão na porta; flores e jardins; a cor de suas janelas e portas e por aí vai.

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